Manipulação da informação e interferência estrangeira (FIMI): o que é e como funciona?
A manipulação da informação e interferência estrangeira (FIMI, pelas siglas em inglês de Foreign Information Manipulation and Interference), é um padrão de comportamento estratégico, coordenado e intencional que busca influenciar nos valores, nos processos políticos ou nas instituições de outro país. O conceito e o acrônimo foram criados pelo Serviço Europeu de Ação Exterior (EEAS).
À diferença de outras análises que se focalizam no conteúdo da informação publicada, como o fact checking, a análise da FIMI coloca o foco no padrão de comportamento e nos métodos de funcionamento, ou seja, quem divulga o conteúdo e a forma como se expressa.
Para que uma atividade seja classificada como FIMI, deve atender quatro condições:
- Deve envolver atores estrangeiros: sem evidência de participação forânea não é possível falar de FIMI.
- Deve utilizar um comportamento manipulador, ou seja, incluir diferentes táticas e técnicas para distorcer a conversação pública ou enganar a audiência.
- Deve ser intencional: a ação deve ser deliberada e ter um propósito claro. Compartilhar informação falsa por desconhecimento, não conta.
- Deve estar coordenada: não se trata de ações isoladas, mas de uma campanha com estrutura.
Assim, um usuário que compartilha ou dá um “like” em uma publicação sem saber que ela faz parte de uma campanha coordenada, não está fazendo FIMI. Um incidente isolado, sem vínculos demonstráveis com uma potência estrangeira, tampouco entra nessa categoria.
A FIMI sempre inclui desinformação?
Não necessariamente. A FIMI e a desinformação se sobrepõem, mas não são iguais. A desinformação pode ser uma ferramenta em uma campanha FIMI, mas não é um requisito. Da mesma forma, nem toda a desinformação circulante é FIMI: muita desinformação não tem nenhum componente de manipulação estrangeira.
TTPS: táticas, técnicas e procedimentos
É habitual apontar para a FIMI como sendo danosa, mas legal: em geral, estas operações tiram proveito de vácuos legais sem constituir um delito, embora em certos casos incluam, sim, atividades ilegais. A má informação é um exemplo: trata-se de informação real (dados pessoais, e-mails, documentos classificados) divulgada com a intenção de causar dano. Este tipo de operações costuma acontecer após um ciberataque ou uma espionagem cibernética, atividades ilegais em si mesmas, que extraem material sensível que será utilizado depois na campanha de influência.
Uma técnica comum para a manipulação da informação é a suplantação de identidade: clonar ou falsificar websites de meios de comunicação legítimos para dar credibilidade a uma mensagem. O conteúdo pode não ser estritamente falso, mas a fonte é inautêntica. Uma variante mais sofisticada consiste em criar marcas de meios de comunicação “alternativos”, totalmente novos, que parecem ser profissionais e independentes, mas que têm uma coordenação centralizada.
A amplificação artificial é a técnica orientada a forçar que um conteúdo obtenha uma exposição muito superior à que iria ter de forma orgânica. Para consegui-lo, o mecanismo central é a manipulação dos algoritmos de recomendação: quando o sistema de uma plataforma percebe que um conteúdo gera muita atividade, ele terá prioridade e maior distribuição entre os usuários. As ferramentas para a implementação são diversas. Uma das principais é através de redes de contas falsas, perfis de descartáveis (burner profiles) e bots automatizados que simulam a atividade real e geram o volume de interações necessário para enganar o algoritmo (comportamento inautêntico). Devido a que com estas técnicas as interações aumentam, o alcance é maior. Adicionam-se a isso a publicidade paga que distribui conteúdo de forma massiva, sem depender do comportamento orgânico, y a contratação de influencers reais com grande alcance que irão replicar uma narrativa coordenada.
O resultado é uma saturação deliberada dos canais de informação. Uma das consequências dessa saturação é que pode produzir tal volume de conteúdo que os jornalistas e verificadores não consigam desmentir tudo a tempo. Nesse ruído artificial, as vozes legítimas ou críticas perdem visibilidade, não conseguem sobressair frente à maré de conteúdo fabricado.
Quais são os objetivos?
Há diversas motivações por trás de uma campanha FIMI. Algumas apontam a desgastar a confiança nas instituições democráticas ou a interferir nos processos eleitorais. Outras buscam reduzir o apoio público a um país em conflito ou desprestigiar certos atores políticos. Em determinados casos, o objetivo é que as vozes discordantes fiquem relegadas sob o volume do conteúdo fabricado ou manipulador. Propósitos diversos costumam aparecer combinados em uma campanha.
Conclusão
Analisar se há alguma manipulação da informação e interferência estrangeira exige direcionar o foco do conteúdo para o comportamento: quem está por trás, como opera e se há coordenação com atores estrangeiros que possa ser verificada. Sem evidência sólida de que se cumprem as quatro condições, o risco é duplo: apontar como interferência estrangeira algo que pode ser desinformação doméstica ou ignorar operações sofisticadas porque seu conteúdo, isoladamente, não parece apresentar risco.
Bibliografia e Recursosursos
- EU DisinfoLab. (janeiro 2026). Building a common operational picture of FIMI: Using IMS to strengthen technical attribution and disruption.
- EU DisinfoLab. (janeiro 2026). A practical toolkit for detecting, assessing, and responding to Foreign Information Manipulation and Interference (FIMI).
- Debunk.org. Foreign Information Manipulation and Interference (FIMI).
- Debunk.org. DISARM Framework (Disinformation Analysis and Risk Management).
- Debunk.org. ABCDE Framework.
- Nicolas Hénin, EU DisinfoLab. (abril 2023). FIMI: towards a European redefinition of foreign interference.
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