O que sabemos (e o que não) sobre o impacto real da desinformação


Na última década, a desinformação tem se tornado objeto de preocupação generalizada para os governos, cidadãos, organismos internacionais, plataformas digitais e académicos. Entretanto, há uma pergunta fundamental que continua estando presente: qual é o impacto real da desinformação? A resposta não é trivial, e a busca de evidência é particularmente difícil de resolver devido tanto a questões metodológicas quanto epistemológicas. Isso tem gerado um debate ativo entre os acadêmicos sobre a dimensão do problema e sua capacidade para modificar ideias e comportamentos.

Para compreender esse debate, é fundamental reconhecer que a preocupação atual não se deve a que se trata de um fenômeno novo, mas às características do contexto onde ele se manifesta, modificando a escala e a complexidade do problema. A desinformação não é um fenômeno novo: boatos, propaganda e falsidades têm existido em todas as épocas e sociedades. O que mudou radicalmente é o ecossistema informativo onde circulam. A Internet reduziu drasticamente os custos de acesso, produção e compartilhamento da informação. Qualquer pessoa pode criar narrativas falsas e alcançar audiências massivas com uma velocidade sem precedentes. Além disso, a própria dinâmica da web e das redes sociais incentiva monetariamente aqueles que geram mais cliques, transformando a produção de informação “explosiva”, embora falsa, em fonte de renda. Desta forma, o ecossistema informativo atual cria condições especialmente favoráveis para a propagação de conteúdos desinformativos.

A dimensão do fenômeno


Alguns pesquisadores afirmam que o fato de que exista um terreno fértil para a circulação de desinformação não implica necessariamente que ela tenha grande impacto na sociedade, e apoiam esta afirmação em estudos que indicam que a exposição das pessoas a conteúdos falsos é, em média, limitada (Altay, Berriche, & Heuer, 2023Allen et al., 2020Acerbi, Altay & Mercier et al., 2022)

Uma revisão das pesquisas que são utilizadas como fonte deste argumento revela – como mínimo – dois problemas metodológicos centrais: de um lado, como se mede a exposição à desinformação e por outro, qual é o tipo de conteúdo considerado efetivamente como desinformação.

Por exemplo, alguns estudos se limitam a analisar o acesso a um conjunto predeterminado e reduzido de sites com desinformação, deixando fora milhares de páginas, contas e plataformas que também produzem e divulgam conteúdos enganosos. Esta forma de medição busca subestimar o fenômeno, assumindo que a desinformação circula exclusivamente em certos domínios claramente identificáveis, sendo que, na prática, adota formas muito mais diversas. Outros se focalizam exclusivamente em medir o alcance e engagement de publicações desinformativas que circulam no Twitter, plataforma que funciona como uma arena de discussão política, mas que é utilizada apenas por um setor minoritário da cidadania. Em conjunto, e por questões de dificuldade metodológica, este tipo de pesquisas não costuma levar em conta outras fontes relevantes de desinformação como, por exemplo, os discursos emitidos por líderes políticos, comunicadores ou influencers, que com frequência são divulgados através dos meios tradicionais ou plataformas massivas com altos níveis de legitimidade. Não se incorporam adequadamente os conteúdos que circulam por canais privados de mensagens, como WhatsApp ou Telegram, onde a informação se propaga de maneira opaca e difícil de rastrear. Soma-se a isso a desinformação que circula fora da internet – em conversações cotidianas, em meios de comunicação locais ou em âmbitos comunitários – ficando completamente fora do radar destas medições

O segundo problema refere-se à definição de desinformação. Muitos estudos se focalizam exclusivamente em afirmações falsas verificáveis, mas a desinformação não se limita a mentiras explícitas. É preciso incluir também argumentos enganosos, omissões deliberadas, verdades a meias ou informação tecnicamente correta mas apresentada de forma descontextualizada para promover interpretações errôneas (Watts et al., 2021). De fato, alguns estudos, mostram que a informação enviesada ou mal interpretada tem maior impacto negativo – por exemplo, na intenção de tomar vacina – que a puramente falsa (van der Linden & Kyrychenko, 2024Allen et al., 2024). Em muitos casos, não se trata de dados falsos, mas de quadros interpretativos com viés que orientam a compreensão dos acontecimentos. Em outros casos e contextos, as narrativas impulsionadas por atores políticos ou pelos meios de comunicação tradicionais estabelecem os contextos a partir dos quais as pessoas interpretam a informação que encontram depois on-line. Nesse sentido, a desinformação não opera exclusivamente através de conteúdos isolados, mas como um processo acumulativo de construção de sentido (Pasquetto, Lim & Bradshaw, 2024). Por último, fazer métricas somente do acesso individual a determinados sites é ignorar que a internet é um ambiente profundamente participativo, onde as noções de verdade e evidência são negociadas coletivamente nas comunidades, tanto on-line quanto off-line. As pessoas não consomem informação de forma isolada nem passiva: elas interagem, discutem, validam e reforçam narrativas compartilhadas. É nesse processo social – mais que na simples exposição a um conteúdo específico – onde a desinformação alcança a maior parte de seu impacto.

As consequências da desinformação no comportamento das pessoas


Outro ponto fundamental do debate consiste em determinar se pela simples exposição à desinformação decorrem consequências diretas nas ideias ou no comportamento das pessoas. Abordar esta questão mediante uma análise empírica apresenta não só dificuldades metodológicas (como isolar a exposição à desinformação de todos os outros fatores sociais e culturais que modulam as ideias e atitudes) mas também um problema epistemológico mais profundo. Quando se trata de fenômenos sociais complexos, como a formação de opiniões políticas ou atitudes sociais, exigir provas de causalidade direta e isolada pode ser um parâmetro inadequado para avaliar relevância.

As ideias e os comportamentos não emergem como resposta linear a um único estímulo informativo, vão sendo construídos a partir de múltiplos fatores inter-relacionados: experiências prévias, identidades políticas, confiança institucional, contextos sociais, quadros culturais e dinâmicas grupais (Pasquetto, Lim & Bradshaw, 2024Ecker et al., 2025). Nesse sentido, e como argumentam Eckert et al. no trabalho de 2025, “que os comportamentos possam ter diversos determinantes em nível individual não exclui que a desinformação tenha seus próprios efeitos (…) e um fator causal não precisa ser o único para resultar relevante.” 

Segundo esta abordagem, existe evidência consistente que mostra as vinculações entre a exposição ou adesão a narrativas desinformativas e determinadas ideias, atitudes e comportamentos

– No âmbito da saúde pública, muitos estudos encontram correlações entre acreditar em desinformações específicas – como a ideia de que as vacinas causam autismo – e a menor intenção de tomar vacina. Durante a pandemia de COVID-19, a adesão a narrativas falsas ou enganosas foi associada à menor intenção de tomar vacina, menor cumprimento das medidas sanitárias e maior desconfiança das autoridades da área de saúde (Allen et al., 2024Lee et al., 2022Loomba et al., 2021Pierri et al., 2022, entre outros). 

– No âmbito político, a narrativa persistente sobre a suposta fraude nas eleições de 2020 nos Estados Unidos ilustra esta dinâmica: embora não explique por si só o ataque ao Capitólio do dia 6 de janeiro de 2021, diversas análises indicam que essa desinformação foi um fator chave para a mobilização ao reforçar a ideia de ilegitimidade e proporcionar um contexto que legitimou a violência como resposta. Não foi a única causa, mas foi uma das que alimentou o conflito. 

– No âmbito eleitoral, a evidência disponível sugere que a desinformação poucas vezes produz mudanças diretas na decisão de voto. Entretanto, que a desinformação não consiga mudar o voto não significa que não tenha efeitos relevantes para a democracia. Seu impacto pode manifestar-se de formas menos visíveis, mas potencialmente mais prejudiciais: como a desmobilização eleitoral, a confusão sobre os procedimentos de votação – como e quando votar -, e até a erosão da confiança na legitimidade dos processos e resultados eleitorais (Adam 2024). Um exemplo desta dinâmica foi observado em uma pesquisa que vinculou a divulgação de teorias conspirativas sobre a fraude eleitoral de 2020 com uma leve redução da participação eleitoral entre votantes expostos a essas narrativas (Green et al., 2022). Mesmo que o efeito agregado tenha sido quantitativamente pequeno, a descoberta é relevante: até mesmo impactos limitados podem ser significativos quando afetam a disposição a participar ou vulneram a confiança nas instituições democráticas. Nesse sentido, a desinformação não precisa alterar as opiniões políticas majoritárias para ter consequências relevantes; basta com que ela desative ou potencialize certos grupos específicos para ampliar as tensões e enfraquecer as normas democráticas básicas.

Em conjunto, o debate sobre o impacto da desinformação não deveria se focalizar em se ela atua como causa direta nos comportamentos, mas em entender qual é sua incidência na vida social real: de forma acumulativa e em interação com os contextos políticos e culturais. Que seus efeitos sejam difíceis de isolar ou quantificar não os torna irrelevantes. Ignorar a desinformação porque não produz mudanças massivas imediatas é subestimar certos processos persistentes, como a erosão da confiança institucional, a desmobilização cívica e os danos concretos na saúde pública e individual. Reconhecer esta complexidade é fundamental para imaginar respostas efetivas que protejam tanto a integridade informativa quanto a saúde democrática de nossas sociedades.

Bibliografia consultada


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