Assimetria política na divulgação de desinformação


Ao longo do tempo, as plataformas e as redes sociais têm implementado diversas medidas destinadas a reduzir a propagação de desinformação: começando por reduzir a visibilidade de postagens que desinformam e punir as contas reincidentes até chegar à eliminação de publicações e à descontinuação de contasEstas políticas foram questionadas em diversos momentos alegando a existência de um viés político, argumentando que eram punidos mais alguns setores do que outros. Mas, será que as políticas têm um viés ou que certos setores desinformam mais do que outros?

A evidência atual mostra que, efetivamente, há uma assimetria política na divulgação de desinformação nas redes sociais. Entretanto, é importante dizer que a maioria desses estudos utilizam dados dos Estados Unidos, ou seja, eles analisam, principalmente, as diferenças entre republicanos e democratas, ou entre conservadores e liberais.

Os conservadores divulgam mais desinformação que os liberais


Uma assimetria tem sido observada de maneira consistente desde 2016 até o presente. Diversas pesquisas com diferentes abordagens metodológicas, realizadas em diversos contextos eleitorais e em outros momentos politicamente relevantes evidenciam que os conservadores costumam utilizar e compartilhar significativamente mais desinformação que os liberais ou moderados.

Por exemplo, um estudo realizado no contexto das eleições presidenciais de 2016 nos EUA entrevistou de forma online 3500 usuários de Facebook e analisou suas publicações na plataforma. Os resultados mostraram que os usuários republicanos compartilharam mais desinformação que os democratas: 18,1% versus 3,5%. Um padrão similar foi observado segundo a ideologia: os conservadores, especialmente aqueles que se identificavam como “muito conservadores”, compartilharam o maior volume de desinformação. Resultados similares foram encontrados em outro estudo do mesmo período eleitoral que analisou os tuítes de 16.442 contas de Twitter. É preciso indicar que os dois estudos têm uma limitação importante: eles consideram como postagens desinformativas exclusivamente aquelas publicações que contêm links a websites externos (uma lista limitada) previamente qualificadas como desinformativas por acadêmicos, jornalistas e verificadores, ou seja, não levam em conta todo o ecossistema de conteúdo desinformativo. 

Outras pesquisas trabalharam com critérios mais amplos de desinformação, permitindo capturar melhor a diversidade desse fenômeno.

Por exemplo, um estudo em grande escala sobre desinformação política com base em imagens do Facebook levantou 13.723.654 publicações de 14.532 páginas e 11.454 grupos públicos entre agosto e outubro de 2020. Esse estudo avaliou a orientação política das publicações de acordo à afiliação partidária das figuras políticas mencionadas ou o posicionamento sobre temas específicos: as imagens que expressavam apoio a causas como LGBTQ, Black Lives Matter, salário mínimo ou controle de armas foram etiquetadas como “esquerda”, enquanto que aquelas com posições opostas foram codificadas como “direita”. Os resultados mostraram uma assimetria partidária enorme: as imagens associadas a ideias de direita apresentaram entre 5 e 8 vezes maiores possibilidades de serem falsas ou enganosas que as de esquerda.

Outro estudo com grande quantidade de dados, realizado durante as eleições de 2020 em parceria com a Meta mostrou de novo a mesma assimetria. Esta pesquisa foi muito mais robusta: levantou dados de 208 milhões de usuários dos EUA no Facebook e buscou todas as URLs de notícias políticas publicadas nessa plataforma entre setembro de 2020 e fevereiro de 2021. A análise incluiu tanto o conteúdo que os usuários viram nos feeds quanto aquele com o qual interagiram (cliques, reações, compartilhamentos e comentários). Além disso, o critério para identificar conteúdo desinformativo foi aplicado ao próprio conteúdo das publicações, em lugar de considerar exclusivamente se tinham origem em uma lista limitada de websites previamente classificados como de baixa qualidade. Embora possua limitações metodológicas – como qualquer estudo – sua escala e profundidade analítica o tornam particularmente relevante.

Esse padrão é observado também entre os líderes políticos, mas não em todos os países. Um estudo que analisou 3,4 milhões de tuítes de políticos americanos, britânicos e alemães entre 2016 e 2022 encontrou que os políticos conservadores dos Estados Unidos compartilham informação de menor qualidade que os liberais, e que os parlamentares republicanos estadunidenses foram aumentado ao longo do tempo a divulgação de links de fontes não confiáveis, ampliando assim o gap com os adversários democratas. Na Alemanha e no Reino Unido, entretanto, as diferenças entre os políticos de esquerda e de direita foram menores e se mantiveram constantes ao longo do tempo. 

Uma análise mais ampla que examinou 32 milhões de tuítes de parlamentares em 26 países europeus (estados-membro e candidatos da Associação Europeia de Livre Comércio) durante 6 anos e vários períodos eleitorais oferece uma perspectiva complementar. Esse estudo classificou os partidos políticos de acordo ao nível de populismo, utilizando um indicador que combina duas dimensões: o centrismo no povo (people-centrism) e o antielitismo (percepção de elites corruptas). Os pesquisadores identificaram conteúdo desinformativo mediante a análise das URLs compartilhadas pelos políticos, utilizando bancos de dados especializados para medir a qualidade informativa de cada partido. Os resultados mostraram que o populismo em si mesmo não está associado à desinformação, os partidos de direita não são mais propensos a divulgar desinformação, e os populistas de esquerda não divulgam mais desinformação que os partidos tradicionais. No entanto, os políticos associados a partidos populistas da direita radical divulgam, sim, significativamente mais desinformação que seus adversários tradicionais. Isso sugere que a conexão entre populismo e desinformação se relaciona especificamente com essa maneira de fazer política.

Esses estudos, em conjunto, revelam a consistência da assimetria partidária e ideológica na divulgação de desinformação. A robustez dessa descoberta se deve, precisamente, à variedade de abordagens utilizadas para documentá-la: diferentes conjuntos de dados, diversas metodologias (pesquisas, análises de publicações, avaliação de URLs), diversos períodos temporais e variedade de contextos políticos (eleições presidenciais, pandemias e outros acontecimentos relevantes).

Todos esses estudos possuem uma característica comum: eles determinam em que consiste a desinformação a partir de avaliações de experts – verificadores profissionais de dados, jornalistas especializados e académicos – os quais, por sua formação e experiência têm a capacidade para avaliar a veracidade de conteúdos e a confiabilidade das fontes. Entretanto, os mesmos setores que questionam as políticas de moderação das plataformas – e apontam para o viés que elas apresentam – argumentam também que esses experts têm vieses liberais, o que poderia indicar que a assimetria observada refletiria o viés das pessoas que avaliam o conteúdo e não uma diferença real na divulgação de desinformação. 

Um estudo publicado em 2024 aborda de maneira completamente exaustiva tanto a assimetria na divulgação de desinformação quanto a crítica sobre o possível viés dos verificadores profissionais. Os pesquisadores analisaram 9.000 usuários politicamente ativos no Twitter durante as eleições presidenciais de 2020, classificando-os a partir de que eles compartilhassem os hashtags #Trump2020 ou #VoteBidenHarris2020, e examinaram os links aos sites de notícias que publicaram em outubro de 2020.

A pesquisa utilizou três métodos complementares para medir a divulgação de desinformação. Primeiro, compararam as URLs compartilhadas pelos usuários com diversas listas de qualificação de confiabilidade de websites: 60 domínios avaliados por verificadores profissionais e jornalistas, 283 domínios qualificados por Ad Fontes Media, 3.216 domínios avaliados por Media Bias/Fact Check, e 4.767 domínios qualificados mediante uma agregação de avaliações de diversos verificadores e acadêmicos. Em todos os casos, foi encontrado o mesmo padrão: os usuários que compartilharam hashtags de Trump divulgaram conteúdo de sites notavelmente menos confiáveis que aqueles que compartilharam hashtags de Biden.

Ora bem, sendo que esses resultados dependiam de avaliações de jornalistas e verificadores profissionais, os pesquisadores implementaram um segundo método desenhado especificamente para minimizar qualquer viés político: utilizaram qualificações de confiabilidade criadas por grupos politicamente equilibrados de cidadãos. Foram feitas entrevistas a 970 cidadãos americanos representativos demograficamente e eles avaliaram a confiabilidade de 60 sites de notícias em uma escala de 5 pontos e indicaram sua preferência partidária (democrata ou republicana, sem opção neutral). Para cada site, calcularam uma qualificação balanceada fazendo a média por separado das avaliações de democratas e republicanos, e depois fazendo a média dessas duas médias, dando assim o mesmo peso aos dois grupos. Os resultados foram quase idênticos: usando estas qualificações politicamente equilibradas, a qualidade dos domínios compartilhados por usuários de Trump foi, em média, 2,17 desvios padrão mais baixa que a dos usuários de Biden. Até mesmo quando criaram intencionalmente uma medida enviesada para a direita usando somente as qualificações de cidadãos republicanos, o padrão se manteve: os usuários de Trump compartilharam conteúdo 1,29 desvios padrão menos confiável que os usuários de Biden. Para dimensionar esta diferença, o usuário médio que publicou hashtags de Trump compartilhou quatro vezes mais links a sites de baixa qualidade que o usuário médio que publicou hashtags de Biden.

O estudo também verificou que esse padrão não dependia do método de classificação política, encontrando correlações igualmente fortes quando se fazia uma estimativa da ideologia dos usuários a partir das contas que eles seguiam ou dos sites de notícias que compartilhavam.

Finalmente, como as análises prévias utilizavam a qualidade do website como indicador indireto da exatidão do conteúdo, os pesquisadores implementaram um terceiro método que avaliava de forma direta a veracidade das publicações específicas, consideradas como inexatas tanto por verificadores profissionais como por grupos politicamente equilibrados de cidadãos. Mais uma vez, os usuários conservadores compartilharam significativamente mais URLs inexatas que os liberais. Além disso, em um experimento de pesquisa em grande escala realizado em 16 países, afirmações sobre a COVID-19 foram apresentadas aos participantes (eliminando assim vieses de exposição e sem indicação da fonte) e foi realizada a medição de suas intenções de compartilhamento. De novo, foi encontrada uma correlação significativa entre conservadorismo e intenção de compartilhar afirmações inexatas.

Um estudo recente de 2025 aborda novamente a objeção de que a determinação de conteúdo enganoso provém de jornalistas e verificadores profissionais de dados: são analisadas as avaliações dos tuítes feitas através do programa Community Notes (notas comunitárias) de X. Aqui, a determinação de conteúdo enganoso não provém de verificadores profissionais de dados mas do consenso entre uma comunidade diversa de usuários da plataforma. O programa Community Notes permite que os usuários apontem publicações como potencialmente enganosas e escrevam notas explicativas que outros usuários votam. Um algoritmo de código aberto solicita o acordo entre usuários com perspectivas diversas para validar a nota e indicar se a postagem é enganosa. Este método baseado na avaliação comunitária é menos suscetível a acusações de viés, como aquelas dirigidas aos verificadores de dados. Os pesquisadores examinaram todas as notas em inglês escritas entre janeiro de 2023 e junho de 2024, um total de 218.382 notas propostas, e os resultados são contundentes: mais uma vez, as publicações feitas por republicanos foram marcadas como enganosas 2,3 vezes mais que as efetuadas por democratas. Este achado não pode ser atribuído a diferenças na composição de usuários da plataforma, já que no momento da tomada de dados não houve um excesso de representação significativa de republicanos entre os usuários de X. 

A evidência apresentada é clara: a assimetria partidária na divulgação de desinformação nas redes sociais é observada ao longo do tempo e em diferentes contextos, até mesmo quando a avaliação provém da comunidade de usuários e não pode ser atribuída ao viés político dos avaliadores.

Bibliografia consultada


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